Admirável Nova Atlântida: o programa baconiano e a distopia contemporânea

Guilherme de Lucas Aparecido Barbosa

Por meio da interseção entre as distopias do século XX e a utopia de Francis Bacon (Nova Atlântida, 1626) pretendemos analisar alguns aspectos éticos presentes no desenvolvimento tecnocientífico da contemporaneidade. Autores e estudiosos dessas narrativas ficcionais vão acusar a obra baconiana de possuir em gênese as ideias que se desdobrariam nas distopias da primeira metade do século passado, símbolos de alerta ao avanço da tecnologia e do autoritarismo nos períodos de Guerra Mundial. Todavia, o desenvolvimento do método experimental-indutivo, bem como a interpretação de Bacon sobre o mito de Dédalo, nos mostra que o Lorde Chanceler tinha consciência que a progressão da ciência possuía aplicações positivas e negativas. Bacon insistiu em sua utopia que a Casa de Salomão, locus político e científico da sociedade na Nova Atlântida, tinha como função guardar os instrumentos de luxúria e morte, da população comum. Sob a liderança dos homens de ciência, e com vistas ao máximo benefício da comunidade (Commonwealth) e do bem da humanidade (Caritas), a sociedade de Bensalém (cidade da Nova Atlântida) poderia exercer o conhecimento-domínio sob a natureza, restabelecendo os laços com o Criador, rompidos desde a Queda. Todavia, o esvaziamento de um ideal condutor e a não compreensão total da proposta de Bacon podem ter ajudado a guiar o mundo para os reflexos negativos do desenvolvimento científico, colocando a distopia tecnocientífica em marcha.

Nº de pág.: 114

ISBN: 978-65-87340-96-8

DOI: 10.22350/9786587340968

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