A tensão do real: entre as formas do saber, os poros do poder e os prismas da estética

Lúcio Álvaro Marques

O que nos move não é o que vemos, mas o que decidimos não enxergar. O aparente soa agradável aos olhos, mas não se sustenta, porque não passa, muitas vezes, de mera construção discursiva, entenda-se, retórica. Quando encaramos o mundo e dizemos “a vida é assim mesmo” ou “tinha que ser assim”, estamos, na verdade, naturalizando o que se apresenta como mais ou menos óbvio. A naturalização do real nos conduz à assimilação da aparência “como se” fosse toda a realidade. Não que a aparência negue a realidade ou vice-versa. Apenas a aparência não constitui toda a realidade. Ela é só mais um simulacro do real que, por sua vez, também resulta de construções discursivas. Nesse caso, há quem perca a esperança de encontrar o que chamamos de real, porém não devemos nos iludir quanto à aparência, pois há sempre outras formas de construção da realidade. O que fazer, então? Não naturalizar os discursos como se fossem a última palavra. O que parece uma fatalidade não passa de uma peça retórica. A atitude filosófica não significa, nesse caso, uma descrença na aparência, mas uma suspeita contínua e difusa frente à aparência e à realidade. É necessário não assumir o discurso vigente como único e verdadeiro. Assumir, antes, o rigor do método investigativo e suportar pacientemente a ausência de respostas. Problemas complexos não têm fácil resolução. Uma verdade nunca é toda a verdade. O ato de pensar exige humildade frente à diversidade de perspectivas e o cuidado para não naturalizarmos a aparência como se fosse toda a realidade. 

Nº de pág.: 435

ISBN: 978-65-5917-256-6

DOI: 10.22350/9786559172566