Literatura em fogo: exílio, metáfora e desagregação em Auto-de-fé, de Elias Canetti
 

Maria Alice Timm de Souza

O sentido de “exílio de si” que foi privilegiado neste livro se constitui em um tipo de exílio que não é escolhido e tampouco é imposto de fora, pois a sua ocorrência se relaciona com uma injunção estrutural, da ordem do psiquismo. Sendo assim, o “exílio psíquico” condena o sujeito a um sentimento de radical estranheza íntima onde o que prevalece é a ininteligibilidade do mundo e de si mesmo. Do ponto de vista da teoria psicanalítica, esta entidade é denominada de psicose; do ponto de vista do uso corrente da língua, é chamada de loucura. Através de um corte transversal que vai da biografia de Elias Canetti, da época em que o escritor viveu e de suas relações com a língua alemã e com a literatura, procuramos identificar no personagem Peter Kien e no romance Auto de Fé, os pontos que apoiam a nossa hipótese em relação ao “exílio de si”: que o uso que Canetti faz da linguagem propiciou-lhe fazer uma perfeita representação do esfacelamento psíquico que assola o protagonista do romance em suas relações com o mundo e com os outros personagens, assim como esta questão subjetiva cumpre o papel de metáfora de um mundo em fragmentação, não só daquele que lhe serviu de matéria-prima para a confecção da obra, como do mundo de hoje, que nada mais é do que a consequência lógica e direta do que já se anunciava no alvorecer do século XX.

 

Maria Alice Timm de Souza é médica pela UFRGS (1990), tem formação em Psicanálise e é Mestre em Teoria da Literatura pela PUCRS (2014). Integra o grupo de pesquisa Literatura e Kabbalah, coordenado pelo Prof. Charles Kiefer (PUCRS). Entre seus interesses de pesquisa destacam-se Teoria da Psicanálise e interfaces entre Psicanálise e Literatura. Autores mais trabalhados: Freud, Lacan, Dostoievski, Canetti, Musil, Broch e T. Mann.

ISBN: 978-85-5696-082-5

Nº de pág.: 113

© 2019 por LUCAS MARGONI & WIX ENGINE.

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